Sábado, 20 de Outubro de 2007

Um fartote: Lovano na Aula Magna e Corea no CCB

 

É assim, com esta naturalidade totalmente oposta à míngua que muitos da minha geração viveram em relação à inexistente regularidade de concertos de jazz entre nós, que hoje podemos dar-nos ao luxo -  sem quase disso nos darmos conta  - de assistir, em duas noites seguidas, às actuações de duas grandes personalidades do jazz moderno: Joe Lovano e Chick Corea!

Num primeiro comentário ainda à margem da música que Lovano nos propôs anteontem (19.10.07) em Lisboa, não pude deixar de me lembrar de uma cena inesquecível a que pessoalmente tive a ventura de assistir há 44 anos (!) durante o memorável concerto de estreia na Europa do novo quinteto de Miles Davis (27.07.63, Antibes, Juan-les-Pins, documentado no álbum Miles Davis in Europe).

Acontece que, durante todo esse concerto, foi ao mesmo tempo admirável e comovente testemunhar o indisfarçável espanto e a justa admiração manifestados por Miles (nos seus olhares e na sua postura) perante a arrasadora actuação de Tony Williams (um puto, então com 18 anos!), músico tão influente quanto decisivo para o impressionante impacte que esse novo quinteto iria desempenhar na carreira do grande mestre.

Ao procurar visualizar na minha memória este flashback, não pude deixar de estranhar sinais de admiração e até de alguma «dependência» (por exemplo, quanto à escolha de certo repertório) agora manifestados por Joe Lovano -  um dos mais extraordinários saxofonistas do nosso tempo, na reavaliação moderna das melhores tradições do jazz clássico  - em relação a Francisco Mela, um baterista interessante q.b. mas de forma alguma decisivo quanto ao resultado final do concerto de sexta-feira passada, antes pecando por um protagonismo desproporcionado que, quanto a mim, prejudicou em parte esse resultado.

Em todo o caso, o público parece ter-se entusiasmado bastante e até alguns ouvidos que particularmente considero não destoaram desta impressão generalizada, pelo que certamente as minhas serôdias obsessões de repórter fotográfico terão contribuído para esta distracção e desconsideração.

Regressado das chamadas «doutorais» -  que a organização do concerto me permitiu frequentar, durante alguns minutos, para ensaiar alguns retratos que constam aqui ao lado e mais acima  - ao devido lugar que me havia sido reservado no Anfiteatro Inferior (sic), pude então prestar mais atenção à sempre generosa e emocionante música que Lovano costuma partilhar com o ouvinte-espectador.

Evocando, nas peças de sabor e carácter mais afro-latino, o ataque e som poderosos de um Rollins ou entregando-se às deambulações melódicas por toda a tessitura do instrumento (no que me fez lembrar um Henderson), Joe Lovano foi intenso e expressivo em duas peças que extraiu do repertório do seu álbum Streams of Expression -  as Partes I e II da suite do mesmo nome: Streams e Cool  -e particularmente caloroso e inventivo na extraordinária e soberana versão de           I Waited for You (Dizzy Gillespie), tendo-nos ainda oferecido outros solos altamente elaborados para uma peça de traça monkeana e para uma outra paráfrase sobre as harmonias de What Is This Thing Called Love, subvertidas estas (na exposição do tema) por brevíssimos acordes de passagem à maneira de Countdwon (Coltrane).

Enfim, um concerto de muito bom nível, com contributos adequados e essenciais dos seguríssimos Dennis Irwin (contrabaixo) e James Weidman (piano).

 

 

 

Prometia muito a actuação de Chick Corea na noite seguinte (20.10.07), realizada no Grande Auditório do CCB, tanto mais que há muito o não ouvíamos assim, num recital em solo absoluto, ainda por cima em piano acústico!

Mas o próprio Corea, antes de tocar, confidenciou aos espectadores algumas atribulações relativas à viagem, com partida na Califórnia, escala em Londres e chegada à capital portuguesa uma hora antes do concerto.

Talvez essas atribulações tenham influído num sentido menos positivo no próprio desenrolar da actuação de Chick Corea, que demorou um certo tempo a «engrenar». E finalmente, quando já começávamos a recostar-nos na cadeira e a extasiar-nos com a música que progredia com naturalidade em capacidade de invenção, um intervalo que já não se usa (embora porventura justificado pelo cansaço do pianista) veio interromper esse crescendo de intensidade criativa.

Tinha ainda havido tempo, apesar de tudo, para experimentarmos os desafios e caminhos tortuosos de uma improvisação relativamente aleatória -  e não muito conseguida  - claramente para aquecer os dedos; uma luminosa recriação de Monk's Mood, sempre apimentada pelas incríveis harmonias de mestre Thelonius; alguns assomos do repertório de influência latina, com a traça inconfundível de Corea; e ainda duas calmas e admiráveis versões de Darn That Dream (Richard Rodgers Jimmy Van Heusen) e Waltz for Debbie (Bill Evans), a templar esse sempre irrequieto e inacreditável blues (mais uma vez de Monk) que dá pelo título Ba-Lue Bolivar Ba-Lues-Are!

A surpresa viria depois do intervalo, com o pianista a optar pela apresentação de excertos (porventura demasiados) do seu ciclo Children Songs (composto para piano-solo e datado de meados dos anos 80), obra praticamente sem improvisações que, na aparente simplicidade descritiva da sua escrita, no tom evocativo das canções de roda, de pequeninas valsas ou mesmo do foxtrot, bem como no impressionismo de algumas harmonias, nos faz lembrar certas peças singelas de um Eric Satie, um Scott Joplin ou um Maurice Ravel.

Tardaria assim a surgir a última peça do concerto, de cromatismo intenso e furioso sincopado que, a par de outros momentos deste recital, serviu para nos recordar mais uma vez o brilhante pianista (em termos absolutos e não apenas enquanto jazzman) que Chick Corea realmente é.

Quanto aos truques extra-programa -  com os ensaios dos naipes de vozes e da participação coral do público  -, eles pertencem às contas de um outro rosário, não são para aqui chamados e serviram, sobretudo, para suscitar a já esperada standing ovation.


 

Actualização: há duas gralhas (Widman em vez de Wideman) nas legendas de duas das fotos da sequência inicial! Nada a fazer... é tarde demais para fazer undo.
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Publicado por Manuel Jorge Veloso o_sitio_do_jazz às 15:26
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